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21 de fevereiro de 2019

Serei eu boa pessoa? (É que as redes sociais baralham-nos...)

Eu sempre me achei boa pessoa. 

Sou incapaz de magoar alguém propositadamente. Não quero o mal alheio. Gosto de ajudar os meus amigos e a minha família. E gosto de ajudar até aqueles que não são  meus amigos ou família, sempre que - e desde que - eu saiba de situações concretas em que a minha ajuda faça a diferença. Não é solidariedade nem caridade, é mesmo só uma ajuda. 

Eu sempre me achei boa pessoa. 

Não me importo nada de condicionar a minha vida em função dos outros. Não sou daquelas que acha que os outros é que têm de se adaptar a nós, nada disso, na maioria das vezes sou eu que me adapto. Faço o que for preciso para que as pessoas à minha volta estejam bem. Pessoas que me são próximas, de alguma forma. 

Eu sempre me achei boa pessoa.

Admito, não sou uma pessoa benemérita, nem estou frequentemente envolvida em causas sociais... Mas isso não faz de mim uma pessoa egoísta ou má. Também não dou esmola a toda a gente que me pede... Mas isso não significa que não seja sensível à situação de todas as pessoas que se veem obrigadas a pedir na rua. 

A minha ajuda não se concretiza pela via da esmola. Nós vivemos num Estado Social e é esse Estado que tem o dever de garantir que todos os cidadãos vivem condignamente, com os direitos básicos assegurados. Não sou eu que vou mudar isso e nem é esse o meu papel. E até podem argumentar que, se todos contribuirmos, as coisas mudam. Mas será que mudam? Pois eu acho que só vão surgir mais e mais pessoas a pedir nas ruas. Porque a esmola não resolve! O que resolve é um sistema social sólido e bem construído, que ajude nos casos identificados e previna que surjam outros.

O meu papel como cidadã (o meu dever, esse sim!) é contribuir ativamente para esta sociedade, ajudá-la com o meu trabalho e com o meu sentido cívico. Nunca me irão ver a pôr lixo no chão, a estacionar em lugares de deficientes ou a vandalizar infra-estruturas que são de todos, como parques infantis ou casas de banho públicas... Pode parecer pouco, mas se todos fizermos "a nossa parte" estaremos a contribuir para um mundo melhor. É nisso que acredito!

O problema é que "a nossa parte" não é cumprida por todos. Curiosamente, aqueles que não a cumprem são os primeiros a apontar o dedo e a criticar-nos se não damos uma esmola ou se não partilhamos um daqueles pedidos de ajuda que circulam abundantemente no Facebook.

Eu sempre me achei boa pessoa.

Porém, na era das redes sociais, há sempre alguém a fazer-nos crer que somos maus. Somos presos por ter cão e presos por não ter. Se não nos manifestarmos contra aquilo que a maioria considera vergonhoso, escandaloso, indecente, ultrajante, etc., então somos nulidades sociais. Se não fizermos likes em tomadas de posição, se não insultarmos em comentários, se não denunciarmos as ditas injustiças, se não apontarmos o dedo ao alvo do momento (há sempre um alvo!)... Então mais vale eliminarmos as nossas contas de Facebook e de Instagram, porque não estamos a contribuir ativamente para a sociedade! Really?!

Na luta moral que se trava a toda a hora nas redes sociais, mais vale atirarmos logo a toalha ao chão porque é certo que vamos perder. Somos sempre maus nas redes sociais!

Felizmente, eu prefiro ser má na estratosfera digital e boa no que verdadeiramente importa e faz a diferença: a vida real.

Caríssimos, "be kind to one another!"

20 de fevereiro de 2019

Ser mãe é, também, não nos orgulharmos da mãe que somos

Ser mãe é, também, não nos orgulharmos da mãe que somos. Também. E reparem que não escrevo "ser BOA mãe" porque isso não existe. O que é ser "boa" ou "má" mãe? Por que critérios se mede a atribuição do adjectivo? Há alguns, na verdade, que não deixam margem para dúvidas de que se é "má mãe". Mas esses estão enumerados no Código Penal porque são crimes. Da mesma forma que esses anulam automaticamente a palavra mãe, substituindo-a por progenitora. Mas não vamos por aí... Vamos concentrar-nos nas mulheres que são realmente mães, como eu, e na crise existencial constante que nos faz achar, volta e meia, que somos más mães.

A culpa, o arrependimento, a indecisão, o não saber se está certo ou errado, o medo do que os outros possam dizer, o que a sociedade nos impinge como "norma".... Hoje em dia, ser mãe é mais do que amar incondicionalmente os filhos e dar o nosso melhor para os educar como seres-humanos decentes. Hoje em dia, ser mãe é também prestar contas à nossa consciência e ao mundo. 

ENORME SUSPIRO. Cansa. Cansa muito. Como se o papel de mãe já não fosse suficientemente exigente, com banhos, refeições, regras, logística, viroses, birras, noites mal dormidas, gestão carreira-maternidade, e um sem fim de afazeres e dores de cabeça.

O meu exemplo: 
  • Costumo dizer que era incapaz de ser mãe a tempo inteiro (sem o "escape" do trabalho e sem me sentir mulher e profissional, para além de mãe!). 
  • Assumo que não gosto de brincar com os meus filhos (não tenho vocação e a minha criatividade esgoto-a no trabalho, lamento!). 
  • Tenho zero paciência para birras, só me apetece distribuir berros e chapadas (e às vezes acontece, portanto estejam à vontade para chamar a Proteção de Menores!). 
  • Sempre que fico uns dias, às vezes uma loooooonga semana, com os miúdos doentes em casa, sinto-me capaz de devorar arame farpado (imaginem-me despenteada, com umas trombas de meio metro, sem tomar banho e pobremente alimentada - qualquer semelhança com o Tom Hanks, no Náufrago, é pura coincidência. Até porque ele tem a sorte de estar sozinho numa ilha... Sem filhos ranhosos e febris!). 

Agora digam-me, com base no que acabaram de ler, se não é legítimo que eu dê por mim a pensar "sou péssima mãe"?!

No meu caso, são muitas mais as vezes em que eu penso "sou péssima mãe" do que as vezes em que me orgulho da mãe que sou. Talvez seja a tendência natural do ser-humano (e a minha em particular) para ver o pior em detrimento do melhor. Ou talvez seja a mania que nós temos  de ajustar a nossa bitola em função da bitola dos outros: "ah, e tal, a mãe X tem três filhos super bem-comportados, nunca os vi a fazer uma birra, sentam-se num restaurante sossegados e calados, um mimo!" Ou "ah, que inveja! A mãe Y anda sempre impecavelmente vestida e maquilhada, com os filhos metidos em fatiotas a condizer, como se estivessem numa sessão fotográfica ambulante de capa de revista tipo "Caras", com o título "família perfeita"". 

Atenção, não há qualquer pretensão neste texto que não seja constatar um facto: mãe que é mãe nem sempre se orgulha da mãe que é. Essa crise existencial pode surgir num momento isolado, pode ser um pensamento fugaz que nos assalta de tempos a tempos ou  - no meu caso - pode azucrinar-nos  a cabeça várias vezes por dia, 7 dias por semana. 

Moral da história (que serve, na verdade, como "note to self"):  'bora lá tentar sermos as melhores mães que conseguirmos, independentemente de crises existenciais, bitolas alheias ou julgamentos de terceiros. 'Bora lá desejar apenas que os nossos filhos sejam e cresçam felizes, assim como nós próprias e a nossa família. 'Bora lá privilegiar a educação dos miúdos e as competências que realmente interessam, como a bondade, o respeito pelos outros, a responsabilidade, a boa educação, a tolerância, a paciência, a percepção de que nada se consegue sem esforço e sem trabalho, a noção de ética inerente a tudo, a amizade, a compreensão... 'Bora lá seguir o nosso instinto (a nossa própria bitola) e aprender a viver e a conviver pacificamente com as chatas das crises existenciais. 

Mães deste mundo, não há mal nenhum em reconhecermos que não somos perfeitas. Mães deste mundo, não há mal nenhum em duvidarmos de nós próprias. Mães deste mundo, não há mal nenhum em questionarmos as nossas competências maternais. Mães deste mundo, não há mal nenhum deste que seja por um bem maior!!!

Agora repitam isto comigo as vezes que forem precisas, até acreditarmos.

13 de janeiro de 2017

A angústia da criatividade (quando não se dorme há mais de 2 anos)

Ser criativa todos os dias, por exigência de profissão, é tramado. Pode ser tramado por vários motivos. No meu caso, é tramado porque tenho um filho que nunca dormiu noites inteiras (sem acordar pelo menos umas 30 mil vezes). Já lá vão 2 anos, 8 meses e 16 dias.

É tramado quando o nosso trabalho é mental e a nossa mente está feita em papas ou sopa triturada. É a isso, afinal, que se resumem os nossos dias.

É tramado quando nos sentamos em frente ao computador e o nosso corpo está tão ou mais exausto que o nosso cérebro. E só nos apetece escrever com a testa! Apostamos então todas as fichas no café, para manter os serviços mínimos a funcionar.

É tramado quando sentimos que já demos tudo o que tínhamos a dar. Que já não há em nós a chama de outros tempos, a capacidade de sonhar, de ter ideias e de as concretizar sem grande esforço.

É tramado quando temos de encaixar a criatividade entre a logística demolidora dos dias. As compras que é preciso fazer (já se acabaram os iogurtes! é preciso comprar fruta! não esquecer dos legumes para fazer sopa! passar no talho para comprar outra coisa que não sejam hambúrgueres - há 3 dias que lhe dou hambúrgueres!). A roupa que é preciso lavar e arrumar (que se lixe o passar!). O jantar que é preciso planear e cozinhar. O almoço que é preciso desenrascar. A casa que é preciso não deixar abandalhar. AHHHHHHHHHHH! PRECISO DE FÉRIAS! (E o último recibo que passei, que nunca mais é pago...)

É tramado quando trabalhamos em casa e toda a gente acha que, na verdade, isso não é trabalho (ter os nossos próprios horários? trabalhar de pijama? dormir uma sesta se apetecer? quem dera!).

É tramado quando, por trabalharmos em casa, sentimos falta de correr para apanhar o metro ou de voltar a ter colegas de trabalho (mesmo que alguns sejam parvos, faz parte).

É tramado quando damos por nós a querer mudar de profissão, todos os dias, a toda a hora.

É tramado quando não nos imaginamos a fazer outra coisa (pelo menos nada que não seja criativo).

É tramado quando a criatividade se torna numa espécie de ser alienígena que se apodera do nosso corpo. E nós limitamo-nos a ser o hospedeiro indolente que até pode falar, caminhar, respirar ou escrevinhar, mas que está longe - muito longe, na verdade - de ser uma pessoa em plena posse das suas faculdades.

Mind Explosion by Creativity
Jesi David 
@deviantart.com

21 de dezembro de 2016

Pré e pós. Eu sou mais do durante.

A primeira vez que me deparei com os conceitos "pré" e "pós" foi quando estava grávida. Nas consultas de obstetrícia, a médica frisou a importância da preparação pré-parto, na mesma medida em que também insistiu ser importante fazer um acompanhamento pós-parto. Eu, já nessa altura, só pensava no "durante", ou seja, no parto propriamente dito. Focava-me nesse momento, pensava como seria, imaginava possíveis cenários na minha cabeça e só desejava que fosse rápido e indolor. O resto, para mim, eram cantigas. Nunca me inscrevi nas aulas pré-parto e fui a uma única consulta pós-parto, 15 dias após ter sido mãe. Não estou com isto a dizer que nos devamos marimbar para o "pré" e para o "pós". Estou apenas a constatar que eu sou mais uma mulher do "durante".

Recentemente, descobri que existe a moda do pré e pós treino. Toda uma série de cuidados (essencialmente alimentares, mas não só) que visam potenciar os efeitos do treino em si. Potenciar o ganho de massa muscular e auxiliar a perda de massa gorda. Escusado será dizer que isto soou a música para os meus ouvidos. Afinal, se há uma fórmula capaz de nos pôr em forma mais depressa, sem que para isso tenhamos de treinar em dobro, eu quero saber tudo! E foi por isso que resolvi inteirar-me das práticas pré e pós-treino, de que meio-mundo anda fã. Pelo menos o meio-mundo que treina com regularidade e leva a coisa do exercício à séria. O meio-mundo onde eu estou a tentar posicionar-me há coisa de 2 meses.


Ora, já investiguei mil truques e dicas, sugestões para snacks pré e pós- treino, suplementos alimentares e cremes que prometem acelerar o metabolismo, reduzir as gordurinhas, tonificar, depurar, energizar e tudo e tudo e tudo. Para meu espanto, há todo um mundo de possibilidades de "pré" e "pós" que eu deveria considerar seriamente para me tornar numa fit girl em três tempos. E, para meu espanto também (que eu já me conheço, mas não deixo de me espantar), estou-me nas tintas para tudo isso. Sim, é um facto. Sou uma despreocupada desleixada. Basta dizerem-me que tenho de comer apenas determinadas coisas, num intervalo de tempo específico, ou tomar regularmente suplementos, de forma regrada, que eu desmoralizo antes mesmo de começar. A disciplina que implica manter determinados hábitos não é para mim. E isso é uma chatice. É uma chatice porque me obriga a suar cada quilo perdido na passadeira e na elíptica. Por esta altura, já podia estar transformada numa Heidi Klum, mas não! Ando para aqui tipo lesma, a dar passos de caracol e a arrastar as gordurinhas no ginásio. E tudo porquê?! Porque sou uma mulher do durante. É uma chatice!

17 de novembro de 2016

Como é que eles crescem tão depressa?!

Há dias em que olhamos para eles e não conseguimos evitar o pensamento: "como é que eles crescem tão depressa?!" A pergunta pode surgir a propósito da mais pequenina coisa, atitude, palavra ou gesto. Algo que nos confirma, efectivamente, que eles estão a tornar-se admiráveis pequenos adultos...  E que nós, pais, somos os distraídos que só de vez em quando reparam nisso!


No fim-de-semana, o João passou em frente a um cabeleireiro e disse que queria cortar o cabelo. "Queres cortar o cabelo?!", perguntei-lhe, não fosse ter percebido mal. "Sim", respondeu ele, assertivo. "Ok, eis uma novidade...", pensei eu. Na verdade, há semanas que eu e o pai falávamos na necessidade de lhe cortarmos o cabelo, mas continuávamos a adiar porque nas três experiências anteriores (duas em cabeleireiro e uma em casa) tinha sido difícil mantê-lo quieto o tempo todo. Aproveitámos, claro, o facto de ele se ter voluntariado. E, ainda cépticos, entrámos no cabeleireiro. Enquanto eu perguntava a uma das funcionárias se lhe faziam o corte, suspeitei que ele fosse mudar de ideias e sair porta fora... Mas não! Para surpresa minha e do pai, ele sentou-se na cadeira adaptada que prepararam para ele, ajeitou-se para lhe porem uma bata de plástico colorida e ficou sossegado durante os mais de 20 minutos que durou o corte. Pelo meio, respeitou todas as indicações da cabeleireira e apreciou curioso cada tesourada e cada gesto à sua volta, enquanto debicava descontraído a bolacha que trazia na mão desde que entrara (e que, às tantas, já estava cheia de cabelos... mas eu continuava tão aparvalhada por tudo aquilo que nem me apercebi. Foi outra das cabeleireiras que chamou a atenção para o facto). No final do corte, perante a incredulidade de todos no salão - que estranhavam a tranquilidade de uma criança tão pequena naquela situação ( suponho que não se encontrem muitos fãs de cabeleireiro aos dois anos e meio!) - o João pede um espelho para conseguir ver melhor a parte de trás do penteado (tal como tinha visto outra senhora a fazer). What?! Enfim, foi o momento "ei, papás, estou a crescer" do fim-de-semana.


Hoje, a caminho da escola, voltei a ter a mesma sensação de deslumbramento quando o vi todo senhor-do-seu-nariz, com a mochila da Patrulha Pata às costas e uma atitude de pequeno adulto que se recusa a dar-me a mão. Há dias em que parece que reparamos neles pela primeira vez. Ou então prestamos mais atenção. E depois deslumbramo-nos com o que vemos: o crescimento, de dia para dia, a ganhar forma e a dar-lhes personalidade.

Ah, e desde há dois dias que ele quer descer e subir as escadas do prédio sozinho, agarrado ao corrimão, repetindo inúmeras vezes "O João consegue". Eu agradeço não ter de o levar ao colo durante três andares e vou o caminho todo a tentar ampará-lo enquanto ele me enxota - "sai, mãe, o João consegue". E é isto! Daqui a uns mesinhos, tenho-o a pedir-me dinheiro para o consumo mínimo de uma discoteca*.

* Isto ainda existe, certo? (Convém não esquecer o reverso da medalha: à medida que eles crescem, nós envelhecemos. Glup)

12 de outubro de 2016

Eu, mãe desnaturada, me confesso! (digitalmente falando)


"Ter um blogue" é como ter um filho. Não basta pari-lo. Há que cuidar dele e alimentá-lo para garantir que cresce saudável. Não é tarefa fácil. Mas também, se fosse, toda a gente teria blogues... E filhos! E eu tenho ambos. Quero acreditar que não falho na minha tarefa de mãe-mãe, como falho na tarefa de mãe-blogger. Afinal, este meu "filho digital" anda à mingua, coitadinho, deixado ao abandono. Shame on me!

E enquanto não faço a remissão dos meus pecados, deixo-vos uma das músicas que tem acompanhado grande parte deste meu ano - um ano quase exclusivamente dedicado ao projecto "Massa Fresca" (série e livros).


Tenho tanto amor para te dar
E ainda estamos no início...

3 de outubro de 2015

Grandes superfícies comerciais são inimigas da boa parentalidade

E por que é que digo isto? Ao assistir à aula de natação do meu filho, nas bancadas superiores da piscina, constato que não o consigo distinguir. Os putos, vistos de cima, têm todos a mesma touca azul, de marca branca. E eu imagino que o meu drama deve estender-se às dezenas de pais cheerleaders perfilados ao meu lado. "Vai Vasquinho, dá-lhe nos bruços! Ah, espera, aquele não é o meu... O meu está a fazer mariposa sincronizada". Mais ou menos assim... :)

30 de setembro de 2015

Doutor, preciso de ajuda! #2

Nunca vos aconteceu terem os mesmos sonhos, exactamente iguais, ipsis verbis, sem tirar nem pôr, durante anos a fio? Well, join the club!

No secundário, sempre que se aproximava o regresso às aulas, no mês de Setembro, eu sonhava que corria para a paragem de autocarro, ofegante, aflita pela possibilidade de perder o autocarro logo no primeiro dia... Até que me apercebia, em pânico, que ainda tinha os chinelos nos pés. E parava mesmo antes de alcançar o autocarro, a um ou dois metros, para constatar que me esquecera de calçar os sapatos. Oh não!

Durante semanas, provavelmente as últimas de Agosto e as primeiras de Setembro, esse sonho repetia-se, exactamente igual. Eu a correr para o autocarro e a perdê-lo por fracções de segundos, assim que me apercebia que estava em chinelos. E não eram uns chinelos de enfiar no dedo, estilo havaianas, que talvez passassem despercebidos (na verdade, nem me lembro se esse tipo de chinelos já existiria na altura, há coisa de 15 anos). Eram mesmo uns chinelos de quarto, daqueles fofinhos, em pelúcia e com sola alta de borracha. Era esse o calçado "de andar por casa".

O sonho terminava comigo especada na paragem vazia, a olhar os chinelos, desolada por ter perdido o autocarro onde seguiam todos os meus colegas, para o tão aguardado regresso às aulas. Lembro-me de acordar com suores frios, verdadeiramente assustada pela possibilidade de o sonho se concretizar... Até que chegava o dia D, o primeiro dia do novo ano lectivo, e eu fazia questão de confirmar, vezes sem conta, que tinha os sapatos nos pés. Sapatos - check! Siga! E saía de casa, com a devida antecedência, para não ter de correr... Ufa!

Na realidade, nunca me aconteceu sair à rua de chinelos. Já me aconteceu achar que o tinha feito e ter necessidade de olhar para os pés. Acontece-me com alguma frequência até. Na idade adulta, inclusive. Talvez tenha ficado traumatizada pelo sonho, who knows. Também não me recordo exactamente da altura em que deixei de ter este sonho, se já andava na universidade ou não, mas lembro-me que ele se repetia todos os anos, religiosamente, antes do início de cada ano lectivo. Como os alarmes de telemóvel que programamos para repetir ou para não tocar em determinados dias. Aquele sonho era mais ou menos isso, uma espécie de alarme: "Não esquecer os sapatos!". A verdade é que resultava! E que bom seria se conseguíssemos, efectivamente, programar os nossos sonhos...

14 de setembro de 2015

Doutor, preciso de ajuda! #1

Decidi começar uma rubrica ao estilo "consultório" porque há várias questões do foro psicológico que me atormentam. (Cuckoo). Todos temos os nossos "macaquinhos no sótão", portanto das duas uma: ou deixamo-los lá sossegadinhos (a fazer macacadas), ou brincamos com eles. E eu sou pessoa que gosta de lhes dar bananas. Gosto de observar os meus próprios macacos, tentando perceber de onde vêm e como posso conviver com eles, tornando-me numa pessoa melhor resolvida com as minhas "interioridades". Neste espaço, serei paciente e psicóloga de mim mesma. Talvez a psicologia de divã me ajude a analisar objectivamente as "cenas maradas" da minha psique. Ou então não. Seja como for, é como dizem: falar (ou escrever) ajuda. Portanto, vamos a isso. Bloco de notas aberto, divã em posição, caneta a postos... Que comece a terapia!

Sem pretensões freudianas, acho que sou bastante boa a "radiografar" desconhecidos. Consigo, num primeiro olhar, identificar os traços gerais da sua personalidade. E raramente me engano. Ossos do ofício, possivelmente. No exercício da escrita - e do guionismo - tenho de criar personagens, inventando vivências e fragilidades psicológicas. Não basta juntar factos à partida relacionados - "foi maltratado enquanto criança, logo, tornou-se um pai abusivo". Claro que há um conjunto de circunstâncias da vida que influenciam o homem ou a mulher que nos tornamos. Claro! Mas o desafio, quando se criam personagens, está em ir para além do óbvio e do estereótipo. Criar uma personagem de tal forma complexa que pareça ter existência real. Porque as pessoas são complexas. A nossa personalidade não é o espelho das nossas vivências, da nossa infância ou da forma como nos educaram. Somos sempre muito mais que isso. Existe, obviamente, uma boa parte de nós que é influenciada pelas circunstâncias - como e onde crescemos, a nossa estrutura familiar, as amizades que escolhemos, etc. - mas há também um recanto da nossa personalidade (o nosso sótão) que tem vida própria. Daí que sejamos todos diferentes. Daí que os irmãos, criados da mesma forma e com vivências semelhantes, sejam - por vezes - radicalmente diferentes. Pessoas boas e pessoas más nem sempre significam vida privilegiada ou vida difícil. E eu gosto da inversão das probabilidades. Pessoas que constroem o seu próprio sucesso, mesmo tendo nascido numa família miserável. Pessoas bem resolvidas, apesar da ausência de uma estrutura familiar saudável. Ou seja, há sempre um momento nas nossas vidas em que podemos decidir quem queremos ser e para onde queremos ir, por mais ténue ou breve que esse momento seja (às vezes nem damos por ele). Mas ele existe. E é essa possibilidade de escolha (ou livre arbítrio) que nos torna "nós". Personagens na vida que vivemos.

OK, estou a dispersar-me. (Maldito divã!) Tudo isto para vos falar de um hábito meu pelo qual ainda acabo internada no Júlio de Matos! E que hábito é esse, minha gente? Tan tan tan tan... Preparados? Observar pessoas. Estranhos. Mas observar mesmo, de forma obsessiva, com os dois olhinhos pregados neles e os ouvidos bem abertos. Passo a explicar.

Eu adoro - adoro! - sentar-me num banco de jardim, numa esplanada, num café (onde for) a observar as pessoas em redor, prestando atenção às suas conversas no telefone, à discussão que têm com o namorado, à forma como tratam o pai ou a mãe, à maneira como se vestem e comportam... Todos os pormenores contam! E, com base no que vejo ou ouço, traço o perfil desses estranhos (fragilidades psicológicas incluídas), exactamente como faço ao criar as personagens das minhas histórias. Eu sei, é um hábito muito feio! Podia tentar desculpá-lo com o facto de ser "pesquisa" para a minha profissão, mas nem sequer é somente isso. Eu adoro fazê-lo. A questão é: será que isso me torna na "maluquinha que gosta de observar estranhos"?

4 de setembro de 2015

Grandes dilemas


Isto de dormir tem muito que se lhe diga. E depois querem que uma pessoa descanse durante a noite... Yeah, right!

3 de agosto de 2015

Durante uma semana, não tenho filho.

Não tenho filho para ir buscar à creche.
Não tenho filho para dar banho.
Não tenho filho para alimentar.
Não tenho filho para brincar às escondidas.
Não tenho filho para dar beijinhos e apertar.
Não tenho filho para me virar a casa do avesso.
Não tenho filho para fazer barulho bom.
Não tenho filho para fazer barulho mau.
Não tenho filho para ouvir, vezes sem conta, as músicas do Panda.
Não tenho filho para me acordar às 7 da manhã.
Não tenho filho para dar biberão à meia-noite.
Não tenho filho para me fazer sorrir com "papá" e "nãnã".

Durante esta semana, não tenho filho.
E ainda não decidi se isso é bom ou é mau.
[É estranho.]

31 de julho de 2015

Cozinhar o amor

O amor não é uma refeição rápida de microondas. Não basta premir o botão e esperar que fique pronta.

O amor é uma espécie de assado de domingo. Tem que se ir virando e regando com molho, caso contrário queima.